Lado a lado, como sentinelas marcando um pórtico, dois leões altivos, assentes nas respetivas bases, exibem corpos robustos esculpidos totalmente envoltos numa delicada malha. A série Leões — Gardes, Hwarang, Vigoroso e Poderoso — usa a hábil manipulação de opostos — poder/subserviência; força/fragilidade; robustez/delicadeza; aprisionamento/proteção; solar/lunar — para subverter a lógica de referenciação a que estariam sujeitos. As polaridades curto-circuitadas fazem, desta forma, detonar o edifício da falsa superioridade; ainda hoje, argumentação legitimadora de dominação e desigualdade entre géneros.
Em “Vigoroso e Poderoso”, Joana Vasconcelos recorre à estatuária produzida em série, neste caso, dois leões e respectivos plintos, feitos em cimento, e ao croché, técnica artesanal e tradicional. O envolvimento e aprisionamento dos dois leões, símbolos ancestrais e universais do poder ligado à identidade masculina, em delicadas malhas crochetadas, tradicionalmente associadas ao labor feminino, resulta num discurso alegórico que procura reflectir criticamente acerca do actual estatuto da mulher no xadrez dos diferentes poderes (politico, económico e social) . Ao sermos confrontados com as duas peças instaladas no grande hall do edifício Justus Lipsius, em Bruxelas, sede do Conselho Europeu, ladeando a porta de acesso controlado, não evitamos pensar na incongruência da desigualdade de acesso das mulheres a altos cargos políticos . No entanto, a artista não procura aqui assumir uma tradicional postura feminista, sobretudo associada ao feminismo da primeira vaga que recuperou, desafiadoramente, formas de arte “menores” como os bordados e as cerâmicas, tradicionalmente associadas a tarefas femininas. É no título da peça, ou melhor, na fonte que inspirou a atribuição do título, que encontramos a subtil ironia que confere sentido pleno à peça. Vigoroso e Poderoso são adjectivos associados à força física e a um estatuto hierárquico superior, logo património do masculino, por oposição à fragilidade e posição subalterna do feminino; mas, neste caso, as fontes que inspiraram o nome do conjunto escultórico são duas gruas fluviais do Porto de Lisboa: a Vigorosa e a Poderosa. Assim, “Vigoroso e Poderoso” afirma a feminilidade como um embuste, pois a essência feminina não passa de um conjunto interiorizado de representações.
Lúcio Moura

© Luís Vasconcelos

© Luís Vasconcelos

© Daniel Salvador Almeida | Cortesia Fundación Casa de Alba

© Atelier Joana Vasconcelos

© José Manuel Costa Alves

© Jordi Nieva Herranz

© 2008, DMF (LISBOA)
Making Of
Detalhes da Obra
Data de produção
desde 2006
materiais
Leões e bases, croché feito à mão
dimensões
variávies
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